1/24/2010

A profissão mais útil

Num breve estudo estatístico (com base numa amostra que consiste em: eu e o meu colega) concluí que o trabalho mais útil a nível de conteúdos aprendidos é: ser talhante! Saber cortar a carne, separar por costeletas, febras, lombo, etc... é complicado. Saber quais as melhores partes para assar, para grelhar ou para cozer é muito útil!

1/23/2010

A Trilogia do Cairo, por Naguib Mahfuz


Já falei aqui desta trilogia quando li o primeiro volume: "Entre Dois Palácios". Agora que já li o segundo "O Palácio do Desejo" e "O Açucareiro" posso afirmar, como de resto, já quase todos os críticos afirmaram, que esta é uma obra genial de Naguib Mahfuz. Ao longo dos três livros é contada a história de uma família do Cairo, desde o início dos anos 20 até final dos anos 30. Ao contar a história desta família, o autor acaba por descrever todo aquele ambiente que se viveu no Egipto durante este período, a presença inglesa, as mudanças políticas, os vários acordos com os ingleses e mesmo a relação com Hitler, inimigo dos seus inimigos. O que acho fantástico nestes livros é que é simplesmente o contar da história de uma família, como todas as famílias, com as coisas boas e más. É uma história simples e magnífica! A forma como ele escreve consegue envolver-nos de tal forma que na verdade nem nos apercebemos desse "ser só isso". Aconselho vivamente, a quem gostar de ler.

1/10/2010

Dubai: Inglesa violada acaba detida por sexo ilegal

O Dubai é um paraíso falso. Como dizia uma brasileira que lá trabalhou "no Dubai tudo é falso, até as palmeiras". Isto seria cómico se não fosse preocupante. Bom, mais turistas sobram para o Algarve...

1/09/2010

Velhos

Gosto de velhos, e não pensem que é uma ofensa chamar velhos, porque não é. Maior parte dos velhos que conheço são pessoas sábias, tolerantes e mais bem educadas do que a maior parte das pessoas com 30 ou 40 anos com quem me cruzo no dia a dia. Claro que há os rezingões, os arrogantes, os que acham que por serem velhos têm direito a pedir para eu me levantar no autocarro para eles se sentarem (eles que são reformados e não fazem nada vs. eu que trabalho muito e estou muito cansada), mas mesmo esses eu gosto de observar. O Miguel Esteves Cardoso tem um texto, em "As minhas aventuras na República Portuguesa" muito elucidativo acerca do que é ser velho. Os velhos podem dizer tudo o que lhes apetece, podem dançar a dança da chuva enquanto tentamos falar com eles, já adquiriram esse direito e com um bocado de sorte são considerados simplesmente doidos. Ele fala de um velho que lhe pôs a língua de fora, e começou a dizer coisas sem sentido, e porquê? Porque pode. Só isso. Maior parte das sociedades e religiões orientais cuida bem dos velhos e dão-lhes muito mais valor. Ser velho é um posto. A nossa sociedade não, limita-se a mimar as crianças além do saudável, enquanto despeja os pais, velhos, num lar. Assisto a cada cena. Um dia destes assisti, com pessoas que conheço de vista, à seguinte situação: entrou no café um casal, de cerca de 30 anos e a filha de 5, acompanhados da avó da menina, com cerca de 55 e a bisavó da menina, já com perto de 90 anos. A menina, coitada, mimada e estúpida que nem uma porta, não queria olhar para a bisavó porque ela era velha e feia. Então os pais pediram à avó da miúda para mandar a velhota ir sentar-se noutra mesa, para não incomodar a menina! A velhota não teve muita hipótese, até porque ou ia ou eles mudavam todos de mesa. Depois da velha se mudar então a menina já pôde comer o seu gelado em paz. Bom o que eu espero é que esta menina e respectivos pais, e avó, quando forem velhos, sejam atirados de um precipício, para não incomodarem os outros, novos, com a visão horrenda que é ver um velho. Isto para dizer que hoje em dia estamos tão concentrados a ganhar dinheiro para encher as nossas crianças de porcarias que na verdade elas não precisam para nada que nos esquecemos deste valor imenso da sociedade: os velhos.

12/17/2009

A morte segundo Alberto Pimenta

artur hipólito morreu com 62 an
os, 20 anos após ter feito 42, mas
na altura quem diria?

heitor fragoso morreu atropelado.
foi levado para o hospital, mas es
queceram-se duma parte do corpo
no local do acidente.

manuel testa morreu sem se ter c
onseguido habituar a este modo
de mal-estar no mundo.

arnaldo rodrigues caiu a um bur
aco da canalização e nunca mais
foi visto.

jeremias cabral pôs termo à exist
ência por motivos desconhecidos.
zeca gomes morreu em defesa da
pátria mas a pensar noutra coisa.

antónio de oliveira morreu igual
a si mesmo: triste sinal dos te
mpos!

bernardo leite pôs-se a pensar na
morte e não conseguiu voltar a
trás.

ivo gouveia tinha uma agência f
unerária e escolheu para si um
caixão representativo.

guilherme silva fechou-se no sót
ão, para morrer num lugar eleva
do.

luís dimas respirava saúde, agora
respira um hálito de eternidade.

antónio garcia, o coveiro, teve u
ma síncope e caiu dentro da cov
a que estava a abrir.

bento nogueira engasgou-se com
um pedaço de carne e desapare
ceu do nosso convívio.

paiva de jesus enforcou-se.
joão baptista viu o cunhado lev
antar-se do caixão e teve uma sí
ncope.

lourenço pinheiro estava a ver a
trovoada e um relâmpago entrou
lhe por um olho e saiu-lhe pelo
outro.

jorge velez de castro finou-se
após uma longa vida de sacrifí
cios, toda dedicada ao bem-comu
m. e foi assim: depois de ter inge
rido o seu sumo de laranja, foi c
onduzido para a cadeira de rep
ouso pelo enfermeiro de confian
ça. nela se conservou, de boca en
treaberta e olhos fechados, até
às onze horas. às onze horas, o e
nfermeiro de confiança aproxim
ou-se com a intenção de o condu
zir ao banho. pondo delicadamen
te a mão nas costas da cadeira,
disse: são horas do banho, senhor
director. como este não desse si
nal de ter ouvido, o enfermeiro
de confiança, com a costumada jo
vialidade, debruçou-se e repetiu:
são horas do banho, senhor direc
tor. posto isto, empurrou a cadei
ra até ao balneário, passou um br
aço pelos rins outro por baixo d
os joelhos do director, e assim o
levou para a água, só então se da
ndo conta de que ele já não vivia.

zé maria, o peidolas, foi expulso
da vida pela autoridade compet
ente.

joão gaspar foi um nobre e val
oroso homem que morreu heroi
camente no campo da honra. p
az à sua alma.

raul santos deitou-se um dia e p
or mais que o sacudissem nunca
mais se levantou.

alfredo penha caiu tão desastrada
mente da cama que nem é possív
el dar pormenores da sua morte.

joaquim perestrelo morreu no me
io da missa, qual quê! ainda a m
issa não ia a metade!

sousa dias morreu de pé, mas en
terraram-no deitado, como toda a
gente.

12/03/2009

Deep, deep thought


And it seems to you the thing to do would be to isolate the winner
And everything's done under the sun,
And you believe at heart, everyone's a killer.

Parte de DOGS, Pink Floyd

12/01/2009

Medo do Islão


Quem tem a porta aberta fica sempre mais vulnerável. Não me parece que este seja um resultado exclusivo deste país. Os europeus têm medo. E não estão a ser extremistas ou racistas com esta posição. Mais do que um sinal de discriminação religiosa parece-me que os europeus estão a tentar defender a sua liberdade. As duas coisas confundem-se um bocado, é certo. Mas é isso mesmo. No caso da Suiça há também outros sinais de fecho a outros povos como as alterações no processo de pedido de nacionalidade, que se tornou bastante mais difícil. Mas toda a Europa tem medo do Islão e dos seus símbolos. A verdade é que o que nós, ocidentais, absorvemos é que abrir mais a porta ao Islão é abrir caminho ao terrorismo que, esse sim, vem ameaçar todas as nossas liberdades. Mas será que estas posições vão incitar mais ao ódio fundamentalista? E os muçulmanos não radicais, onde ficam no meio disto tudo?

11/14/2009

Onde estava você quando o Muro caiu?

Lembro-me da queda do muro de Berlim. Tinha 8 anos nessa altura mas mesmo assim lembro-me de achar fantástico, apesar de não perceber bem toda a situação. Havia no entanto algumas coisas que me faziam confusão. Por exemplo, porque é que era a parte do Leste, supostamente, a parte má, que se chamava Democrática? Então "democrática" não era uma coisa boa? Isto fazia-me grande confusão. Outra coisa era o facto de ter um muro a dividir Berlim... então as pessoas não podiam ir contornar o Muro onde este acabava? Parecia simples... O que me fascina bastante na história do Muro de Berlim são as fugas fantásticas que aconteceram. Para a história fica o homem que construíu um túnel entre as duas Alemanhas para ajudar dezenas de pessoas a fugir. Ou aqueles irmãos, que num ultra-leve improvisado, planaram até ao lado Leste para ir buscar um terceiro irmão. Fica, infelizmente a história do rapaz de 19 anos que foi alvejado a tentar passar para o lado de lá o muro. Como ambas as partes tinham medo dos soldados da outra parte, foi deixado ali. Sangrou até à morte enquanto perguntava : "Porque é que ninguém me ajuda?"

11/05/2009

Portugal, Portugal

Uma pessoa até acorda bem disposta, apesar de ser cedo e até ouve uns programas engraçados na rádio e, até consegue arranjar um estacionamento por sorte, era o único, ao pé do trabalho. Depois começa a estacionar e vê que no edifício ao lado um anormal qualquer parou de trabalhar na obra para se ir pôr encostado à vedação, a um metro de nós, de braços cruzados, a olhar para nós e a rir enquanto estacionamos (bem, e à primeira, note-se...), com o perfeito ar de atrasado mental . Francamente...

10/31/2009

Pensamentos

E depois há aqueles momentos em que ficamos pequenos, pequenos e só queremos estar sozinhos e quietos, quiçá a ler um livro que nos leva para lá. Ontem estive no Egipto, década de 20, que bom, estar lá com aquelas famílias, a viver os mesmos sentimentos anti-ingleses. Que bom esquecer tudo e ser só aquelas pessoas todas. É assim com os livros bons. Só queria estar aí. Porque tudo é tão vulgar que só os livros nos salvam. Todos iguais. Tudo igual. O meu filho é muito desenvolvido. Dizem os pais, quão vulgares são todos. Todos dizem que canto bem. Pois sim, lá no karaoke da aldeia, não é? Ah, meu deus. Tanta oportunidade passada, devia ter ido ver o mundo, mas falta-me a coragem, com o tempo será pior. Mais presos estamos. Parece-me sempre tarde demais até perceber que agora sim é tarde demais e que há um tempo atrás não era tarde demais, até voltar daqui a um tempo, a perceber a mesma coisa. Que prisão que sinto. Ainda bem que há livros.

10/23/2009

All the lonely people

Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people

Eleanor rigby picks up the rice in the church where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window, wearing the face that she keeps in a jar by the door
Who is it for?

All the lonely people
Where do they all come from ?
All the lonely people
Where do they all belong ?

Father mckenzie writing the words of a sermon that no one will hear
No one comes near.
Look at him working. darning his socks in the night when there's nobody there
What does he care?

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?

Eleanor rigby died in the church and was buried along with her name
Nobody came
Father mckenzie wiping the dirt from his hands as he walks from the grave
No one was saved

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?




O que é que nos prende às cidades? As pessoas? Os sonhos e ambições? A cidade em si? E sem sonhos e ambições e sem pessoas. Que cidade consegue a vocação de prender alguém sem lhe dar em troca apenas solidão?

10/10/2009

MacGyver

Ontem vi o episódio piloto desta série... Que saudades. Logo me transportou para aqueles Domingos de Outono, ao final de uma tarde em que já era noite, chuva e cheiro a terra molhada, para o café do Cilo (o antigo...), cheio de pessoas acabadas de chegar dos jogos de futebol da 3ª divisão distrital...

9/26/2009

Curiosidades

Os sítio escolhidos pelas prostitutas da nacional 1, que lá trabalham durante a semana, são exactamente os mesmos que as famílias, ao fim-de-semana, escolhem para parar e fazer o lanchinho do passeio.

Já repararam que para os adolescentes tudo evolui (desde as tecnologias, até à hora de chegar a casa), menos os tratamentos anti-acne, que continuam a Não dar resultado?

9/06/2009

Bússula eleitoral

Clicando no título serão direccionados para a Bússula eleitoral, um programa de perguntas e respostas, alojado no site da SIC, que analisa a vossa orientação política e os partidos com os quais se identificam mais e menos, dada a vossa opinião sobre vários temas. A minha localização no mapa foi dar a uma tal de direita (muito centrista) libertária, na qual habita um partido intitulado PDA. É interessante experimentar.

"Como enriquecer em três passos"

Na última voltinha que dei por uma livraria reparei na proliferação de livros sobre como enriquecer, como sair da crise, como evitar que a crise o afecte ou como ganhar o seu primeiro milhão... Estes livros de auto-ajuda sempre existiram mas parece-me que a crise ajudou à sua divulgação, ou pelo menos a dar-lhes lugar de destaque nas livrarias. O que me leva a uma conclusão... será que são os jornalistas, que tanto falam na crise, que tanto proclamam os maus tempos que aí virão, os autores destes mesmos livros?? É uma espécie de: "ah e tal, a crise, vai ser grave, as perspectivas são péssimas, a pobreza, o desemprego, tenham medo..." e depois, logo a seguir, toca de escrever livros numa de "ah e tal, mas eu tenho a solução para si, só para si, e vou revelá-la. Você não tem que ter medo da crise porque com este guia pode enriquecer em três tempos... O importante é saber poupar e saber investir. Poupe uns módicos 16,25 € e invista aqui neste belo livro". Se não se falasse tanto na crise estes livros não tinham tanta saída, não era?... Também acho piada aos conselhos escritos nestas páginas plenas de sabedoria:

- Controle o seu dinheiro ... pois, bem, os meus avós já faziam isso muito bem e nem sabiam ler...
- Mesmo que ganhe pouco poupe sempre qualquer coisa.. "controle os seus cêntimos, que os euros saberão de si"... É claro que esta gente não faz ideia do que é "ganhar pouco" em Portugal. Isto parece-me ser uma estratégia camuflada do patronato para conter a revolta social causada pelos míseros ordenados que a maior parte paga aos empregados. Não se revolte por ganhar pouco porque mesmo assim, segundo a nossa suprema sabedoria, pode enriquecer. Não me façam rir...
-Evite gastos supérfluos... bom, se comer for considerado um gasto supérfluo...
-Veja aqui a lista de produtos financeiros em que é seguro investir... nesta parte eu remeto para o segundo ponto. Investir o quê, mesmo?
- Saiba como poupar na água, na luz e no gás (nesta secção, havia uma série de dicas, como comprar aquelas lâmpadas caríssimas que duram muito mais tempo, desligar as luzes quando não são precisas (!!!), fechar a torneira enquanto lavamos os dentes, entre outras coisas de educação básica). Mais uma vez posso afirmar que até os meus avós já faziam isso e não precisaram de nenhum livro para lhes ensinar.

O conselho mais honesto que estes livros poderiam dar cabia em uma página (e poupava-se papel):

Passo 1: escreva um livro de auto-ajuda com balelas óbvias que não servem para nada
Passo 2: arranje uma editora que queira enriquecer também em três passos
Passo 3: venda-o a um monte de palermas, por cerca de 15,00 € cada um, que acham que assim vão enriquecer

E pronto, "como enriquecer (o autor, claro) em três passos". Não é a toa que estes livros são de "auto-ajuda" (auto, da parte do autor...)

9/05/2009

Gripe espanhola

A gripe espanhola ou gripe pneumónica, que teve início em 1918 atingiu cerca de 50 % da população mundial. Em Portugal matou cerca de 120 mil pessoas. Contam os antigos da minha terra que os avós deles a curavam principalmente com aguardente! Era de facto o único remédio que por ali havia na aldeia. Alguns morreram, outros curaram-se (não, não morreram de cirrose a seguir...). Conta-se que deu origem a grandes risadas dada a quantidade de álcool que foram ingerindo. O único jazigo existente no cemitério de lá foi feito para uma família inteira, (já tinha reparado nos caixões de adultos e de crianças), que sucumbiu à gripe pneumónica. Também o pintor Amadeo de Souza-Cardoso e os dois pastorinhos de Fátima morreram com esta doença.

8/22/2009



Todos precisamos de paixão. Não, não é de lamechice que estou a falar... é de paixão. De nos sentirmos arrebatadas. Nem tem nada a ver com romantismo. Esse é mais calmo. Tem a ver com emoção. É necessária. Recentemente lembrei-me novamente deste filme, o meu preferido enquanto adolescente (típico...). Para dizer a verdade lembrei-me porque passou esta música na rádio e fez-me lembrar dos longos suspiros a ver esta dança final...E fez-me lembrar do quanto é necessário sentir essa paixão, nem que seja por uma breve dança...

8/09/2009

Férias...

Vou de férias... Foi um ano muito cansativo. Com dois empregos e uma tese de mestrado para entregar nos prazos estabelecidos feita nos poucos tempos livres. Com uma folga de quinze em quinze dias. Já chega.... não aguentava muito mais.

Simplex + novas oportunidades

Depois de quase ter ficado retida no aeroporto de Marselha por ter o B.I. caducado há três dias, eis que, passado quase um mês dessa situação, decidi ir renová-lo, que é como quem diz, fazer o Cartão do Cidadão... aquela cena pidesca onde está TUDO sobre nós.... A última vez que fui renovar o B.I. a coisa até foi relativamente simples:

Cheguei ao balcão do registo civil (não estava ninguém na fila).
Disse que ia renovar o B.I..
Preenchi uma papelada.
Fui medida.
Demorou cerca de dez minutos.

Para ir buscá-lo o processo também foi simples:

Cheguei ao balcão do registo civil (não estava ninguém na fila).
Pedi o B.I. em causa.
A funcionária procurou e entregou-mo.

Demorou cerca de cinco minutos.

Agora lá fui eu, crente no SIMPLEX, acreditando que tudo era mais simples e mais rápido... Mas desta vez a coisa não foi tão simples:

Cheguei às dez da manhã e procurei uma senha para tirar para o objectivo em causa... não havia...

Não percebendo muito bem como é que a coisa se processava, perguntei a uma das vinte pessoas que se acumulavam naquele espaço se ela sabia qual o processo para fazer o Cartão do Cidadão... Lá me foi explicado que era preciso ir muito cedo para a fila...hmm.. fila? mas que fila? não se tira uma senha e pronto? Pois, parece que não... a própria fila é para tirar uma senha... e a senha é para quê? Pois... para se marcar uma hora para durante a tarde desse dia ir lá fazer o cartão... Então lá fiquei à espera de conseguir falar com a pessoa que estava atrás do balcão que me explicou que para esse dia já não havia marcações. Teria que voltar noutro dia...

(nota: parece que antes eles faziam marcações para os dias seguintes. Ia-se lá numa segunda-feira, por exemplo, ficava-se na fila de espera para a senha de espera para fazer a marcação para, tipo, quinta-feira.)

E pronto, duas semanas depois, com mais uma folga ao jeito para fazer isso (ainda bem que tenho folgas durante a semana porque quem não tem gasta dias de férias nisto), lá fui... Consegui marcação para tarde. E pronto... aqui até foi relativamente simples, uma vez conseguida a marcação. Fui chamada e lá fui olhar de frente para a máquina da verdade ... verdade porque ela não se engana na nossa altura (infelizmente para mim), sorri sem mostrar os dentes, olhei para cima como me mandaram e "Thcac" lá fiquei com cara de parva a cerrar os lábios enquanto olhava para cima (não sei se estão a imaginar...).




Mas...... foi preciso ir buscar o cartão.... Tenho que admitir que a carta para o ir buscar até foi rápida. Demorou cerca de uma semana. E lá fui, convicta de que seria rápido... Mas não!

Basicamente parece-me que há aqui um conflito de programas governamentais: com o simplex muita coisa foi informatizada para agilizar as coisas. "Informatizada" significa mais computadores e mais coisas... informáticas, portanto. E com as novas oportunidades muitas pessoas que nunca tinham mexido num computador (literalmente) ficaram com habilitações suficientes para que, estando inscrita no Centro de Emprego e a receber subsídio, o estado as fosse contratar para os serviços públicos quando necessário. O resultado é: mais computadores e mais pessoas que não percebem absolutamente nada de computadores. A consequência deste resultado? Três horas numa fila, que tinha, inicialmente, apenas 10 pessoas à minha frente!

Tentando entender o porquê da demora, aproximei-me para observar o processo e deparei-me com estas situações:

A senhora punha o cartão num ranhura, para que este fosse identificado, e ficava à espera que algo acontecesse... Quando via que nada acontecia movimentava o rato para trás e para a frente e de vez em quando clicava em algumas coisas. Nada acontecia... então tirava o cartão e inseria os números do cartão (em algum sítio, porque eu só a via pressionar os dígitos do teclado). Nada acontecia... finalmente pedia ajuda a alguém. Lá vinha alguém. Numa das vezes a resposta foi: "Isso não dá porque é preciso clicar no CONTINUAR" Senão não aparece o écran onde ENTÃO se põe o número". Depois havia a parte de procurar o CONTINUAR, conseguir colocar a seta do rato em cima do botão e então CLICAR. Isto repetia-se em várias fases do processo! E quando chegou a hora de almoço da funcionária, ela levantou-se, a meio do processo de entregar um cartão e disse: "Desculpe, mas chegou a minha hora de almoço, depois alguma das minhas colegas virá cá acabar de lhe entregar o cartão!". E foi o que nos valeu, ela ir almoçar. A funcionária seguinte, ágil e competente, despachou mais gente... Quando a primeira voltou do almoço, apesar dos protestos de quem lá estava a ver que a coisa ia abrandar outra vez, lá estivemos mais quinze minutos até a senhora perceber qual o programa, todo o conceito de inserir a password, o que é uma password....

E três horas depois lá consegui obter o meu cartão onde estou com cara de parva a olhar para cima!

8/08/2009

Colapso

Encontrei um viajante de uma terra antiga
Que me disse: "Duas imensas pernas de pedra sem tronco
Erguem-se no deserto. Perto delas, sobre a areia,
Jaz, meio enterrado, um rosto despedaçado, cujo olhar severo,
Boca franzida e esgar de frio comando,
Revelam que o escultor decifrou bem as paixões,
Que sobrevivem ainda, gravadas nestas coisas sem vida,
A mão que as arremedou e o coração que as alimentou:
E sobre o pedestal surgem estas palavras:
'O meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Olhai as minhas obras, ó Poderosos, e desesperai!'
Nada para além dele perdura. Em torno da ruína
Desse colossal destroço, ilimitadas e nuas
As ermas e suaves areias estendem-se na distância."

Ozymandias, por Percy Bysshe Shelley